...e a forma como a Comunicação Social a trata, há coisas que me irritam profundamente e que continuo a achar inexplicáveis.
1º - O que é morrer "de doença prolongada"? Alguém me explica? Se o Sr.Antunes está constipado durante 10 dias, a seguir evolui para uma pneumonia, é internado durante mais 20. Tinha asma e acaba por morrer de complicações respiratórias. Ao todo, levou 30 dias a morrer. É doença prolongada?
2º - As sempre difíceis definições... Se o Sr.Fontainhas descobre, dois dias antes de morrer, que tinha um cancro em fase terminal... morreu de doença prolongada? Ou foi morte "quase súbita"?
3º - Existe uma coisa chamada "morte imediata"?Os jornais têm muito a mania de concluir que, se uma pessoa não chega viva ao hospital depois de um acidente de viação, "teve morte imediata". O que estes jornalistas "acidentais" tentam ignorar é que, por um lado, os bombeiros podem demorar meia-hora a chegar ao local e, quando lá chegam, efectivamente, o Sr.Cipriano já não respira. Mas, mesmo que chegassem, muito provavelmente, o Sr.Cipriano não morreria num instante, mesmo tendo um pedal do travão cravejado na bacia, a alavanca das mudanças a trespassar-lhe o pâncreas e expelir-lhe a vesícula pelas costas, e uma das palas contra o sol embutida no parietal esquerdo. São ferimentos a ter em conta, possivelmente mortais... mas não quer dizer que a alma lhe tenha abandonado o corpo rumo ao purgatório num segundo...
Agora... embora ache que só muito raramente existe "morte imediata" (e que se abuse da expressão nos
media sem se saber o que se está a dizer), acredito que exista. Vamos a um exemplo: certo dia, passeava o Sr.Lopes por uma rua larga, quando, vindo do 19º andar, cai a alta velocidade um piano que estava a ser (mal) transportado por uma empresa de mudanças. O piano era um Steinway branco de 1976 e cai direitinho em cima do Sr.Lopes que é esmigalhado. A polícia não encontrou mais do que 2cm2 de Sr.Lopes intactos. É um facto, o Sr.Lopes nem deu por nada. Mal o piano assentou no chão, desfazendo-se em fanicos e dando um enorme prejuízo à Transportadora Ideal do Torel, o Sr.Lopes já nem tinha um único neurónio funcional que transmitisse a palavra "ui" ao cérebro, quanto mais estar vivo... Neste caso, é um facto, houve morte imediata.
Agora, tentem lá encontrar numa notícia do jornal, a expressão "morreu após prolongada agonia"... e não será o que acontece mais vezes?